2009-11-21

Do Portugal eterno: luz, amor, poesia e sombra














Ode ao Outono (Arlindo do Rego)

"Foi-se o suarento Verão, chegou o fresco Outono.
Muda a pena e cai a folha.
Noites longas ao som do vento e da chuva.
Ahh! Tão bom!...
De Outubro ao Natal, salto de pardal."

Odiosa americanice

Das ideias odiosas que a hegemonia americana impôs ao mundo nas últimas décadas, duas são especialmente odiosas: a ideia de que o que é grande, só pelo facto de o ser, é bom (e, se for muito grande, é melhor) e a ideia de que o que é original, só pelo facto de o ser, é bom. Esta leva a que passe a minha vida a lutar contra gente que quer trocar o restaurante onde vamos sempre e onde fomos sempre bem servidos, por outro cuja única recomendação conhecida é o facto de ser novo. Aquela fez com que passasse em branco a noite de anteontem. Por certo sob influência americana, os responsáveis pelos equipamentos do hotel asseguraram pessoalmente que nenhuma almofada nos quartos seria mais pequena do que a adequada à cabeça de um elefante com hidrocefalia. Se é grande, é bom - pensam eles.

2009-11-20

Música à sexta-feira


LAS MAÑANITAS-MARIACHI FLORES - 20/11/2009 - Caro Funes, muitos parabéns pelo teu quadragesimo nono!

2009-11-19



O sr. Platini e os seus muitos milhões de amigos em Portugal estão, agora, calados.
O futebol português é uma vergonha (até meio de Agosto, pelo menos, era). Verdade desportiva é lá fora.

Insónia

Surrealista é aquele que vê no impossível infinitas possibilidades.
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2009-11-18

Reconfortante

-
É reconfortante - nestes tempos de dissolvência, de consciências tranquilas, de inocentes presumidos, de mentirosos que só falam verdade - ouvir uma portuguesa que não se deixou contagiar pelos jogos de palavras e nos relembra, com luminosa claridade, as verdades elementares da Ética.

E desta vez: Tôôôôôôôôôrres Vedras!

Julgamento em Lisboa, às duas.
Viagem tranquila pela A8, ou A17, ou lá como é que aquela coisa se chama. Tirando os cem ou cento e cinquenta metros feitos em cima de um lençol de água, sem qualquer controle da viatura; os dois carros capotados na zona da Figueira que cortavam completamente a faixa da esquerda e contra os quais me ia espetando; o camionista imprudente que por pouco me abalroava, quando parei na berma da auto-estrada, para fotografar a sempre amável vila (ou será cidade?) de Óbidos e os três ou quatro energúmenos que me buzinaram, por causa do bocadito que tive que fazer em marcha-atrás, quando, distraído, deixei passar a saída para Odivelas, nada a assinalar.
Na área de serviço de Torres Vedras, parei. Tomei um café, comi uma nata, passei preventivamente pelo wc, besuntei as mãos com álcool em gel (não porque tivesse visto nisso qualquer utilidade, mas porque era de graça) e regressei ao automóvel. Já com a ignição ligada, a pôr o cinto de segurança, ela, com a reconhecível farda da "Pans & C.ª", a levar com uma bátega de chuva nas ventas, bateu-me no vidro:
- Desculpe, esta carteira não é sua? Esqueceu-se dela no quarto-de-banho.
Generoso, desculpei-a. E parti, guardando de Torres Vedras a recordação de mais uma localidade onde gente honesta me tratou bem.
-
PS - Segui o seu conselho, PBL. Fiz constar da acta o incidente. A senhora negou. Jurou que só quis falar com as testemunhas, para estas a esclarecerem, a ela, dos factos. Durante a audiência, o juiz, depois de quatro ou cinco advertências, tirou-lhe a palavra. "Diga lá, senhora testemunha - perguntava ela - não foi no dia 23 de Abril de 2008, pelas 15 horas, ao escritório da Ré, com o Sr. X, o Sr. Y e o Sr. Z, apresentar uma reclamação por causa de....?"

2009-11-17

Pode ser que, desta vez, funes, zekez e mcjaku comentem

2009-11-16

Sobre um caso da actualidade

Sei pouco de Direito e Processo Penal. Sou generoso. Na realidade, não sei nada. Por isso, procuro informar-me junto de quem sabe. Depois do que me dizem, fico estarrecido. Vejamos:

Imagine-se que um indivíduo é suspeito de se dedicar ao tráfico de droga. Obtida a competente e indispensável autorização judicial, a polícia revista-lhe a casa. Não se descobre nada relativamente ao tráfico de que era suspeito*, mas, numa arca frigorífica, descobre-se o cadáver antigo de uma mulher que o suposto traficante afirma (e prova) desconhecer, alegando ter arrendado, mobilada, aquela casa há uma semana, nada sabendo do conteúdo das arcas que nela se encontram.

Deverá a polícia ignorar este macabro achado e abster-se de abrir um inquérito para apurar o caso, uma vez que esta foi uma descoberta acidental que não constituía o objecto primeiro da revista efectuada e esta a ele não era dirigida?

Não conheço quem defenda semelhante absurdo. Todavia, muita gente o defende - sem que eu tenha ainda logrado compreender os respectivos argumentos - no caso paralelo de, em vez de se tratar da revista a um domicílio, se tratar da escuta de uma conversa telefónica. Sustenta-se, nestes casos que, porque a escuta não era dirigida ao que, na qualidade de mero interlocutor do escutado, confessa ou dá indícios de ter cometido um crime, este já não pode ser investigado.

Qual é a diferença para o caso da revista a um domicílio? Não implica esta uma devassa maior e mais intensa da privacidade e da intimidade dos cidadãos? Porque é que um crime incidentalmente descoberto na devassa de uma residência deve ser objecto de um inquérito autónomo e o crime incidentalmente descoberto durante uma escuta telefónica não o poder ser?

Mas admitamos como bom o argumento. Uma coisa é a suspeita da prática de um crime, outra coisa completamente distinta são os meios de prova desse crime. Estes podem ser ilícitos e obstar, se não existirem outros, uma condenação. Mas podem existir outros e o crime não desaparece pelo facto de certos meios de prova não serem lícitos.

Tanto quanto sei (e sei nada, repito, mas disse-me gente que tenho por conhecedora do processo penal), sempre que um procurador, no exercício das suas funções, tem notícia de factos que indiciam a prática de um crime público está obrigado, sem qualquer hipótese de escolha, a abrir um inquérito destinado a apurar as circunstâncias e a autoria desse crime, ou a remeter certidões para quem tem competência para o investigar.

Ao que parece, foi o que fez (e bem) o responsável, em Aveiro, pelo caso "sucatasgate". Tendo tido acesso, no decorrer da investigação, a conversas mantidas entre o suspeito Armando Vara e José Sócrates; tendo - na sua não sindicável consciência - ficado convencido que estas conversas indiciavam a prática de um crime público grave por parte do primeiro-ministro, o Senhor Procurador de Aveiro fez o que lhe competia: extraiu certidões daquelas conversas e remeteu-as a quem de Direito, no caso, o Procurador Geral da República (ou o DIAP de Coimbra e, através deste, o PGR, não sei nem agora importa).

E é aqui que o caso começa a descarrilar.

Recebidas as certidões, o Procurador Geral da República tinha dois caminhos: ou não via nelas os indícios criminosos que viu o Procurador de Aveiro, ou via os mesmos indícios que este viu. Na primeira hipótese, dizia-o e matava logo ali o assunto. Na segunda, enquanto responsável máximo pela investigação criminal, não tinha escolha: tinha que abrir um inquérito. E no decurso deste é que apurava a licitude ou ilicitude dos meios de prova disponíveis para, se fosse esse o caso, promover uma acusação.

O que o Procurador Geral não podia fazer, foi o que fez: remeter as certidões para o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, para este se pronunciar sobre a validade das escutas e, em função disso, decidir abrir ou não um inquérito.

Isso é confundir o crime com os meios de prova desse crime, um erro tão primário e ingénuo, que não é crível que o Procurador Geral da República o cometa.

O Procurador Geral da República podia questionar o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça sobre a licitude ou ilicitude do uso, como meio de prova, das escutas em seu poder. O que não podia era assumir ab initio que esse era o único meio de prova de que se podia socorrer para provar o crime indiciado (porque, naturalmente, a questão dirigida ao Presidente do STJ só faz sentido, se o PGR tiver ficado convencido de que existiam, de facto, indícios da prática de um crime grave pelo primeiro-ministro. Caso contrário, ordenava, sem mais, o arquivamento do dossier). Por que não ouvir testemunhas que tivessem conhecimento dos factos? Por que não ouvir, como arguido, o próprio José Sócrates? E se este confessasse os ilícitos de que é suspeito? Perante indícios sérios da prática de um crime muito grave, como pode o PGR, em vez de abrir um inquérito para apurar os factos, limitar-se a perguntar se pode usar um meio de prova desse crime, decidindo logo desistir da investigação se o não puder, sem cuidar sequer de verificar se o crime não pode ser provado por outros meios?

Mas melhor não andou o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Em vez de se limitar a responder à questão que lhe foi formulada e pronunciar-se sobre a licitude ou ilicitude das escutas do primeiro-ministro, ordenou a imediata destruição dessas escutas, à revelia da lei e contra a lei, que prevê tal destruição apenas após o trânsito em julgado da decisão final do processo.

Porquê esta pressa ilegal?

Não sei. Não sabe o cidadão comum.

O que eu sei e o que sabe o cidadão comum é que, por não sabermos, todas as suspeitas são possíveis. O caso abala os fundamentos do Estado de Direito em que queremos viver. E - seja lá por que razão tenha sido, benigna ou maligna - o PGR e o Presidente do STJ falharam colossalmente.

A confiança indispensável que os cidadãos têm que ter nas suas instituições impõe que nenhum deles se possa manter no exercício das respectivas funções.

* - Ou descobre, para o que aqui importa é irrelevante

Esforço, devoção, dedicação, glória

Funes, o vidente

Hoje vamos ter um dia de chuva.

2009-11-15

Ingmar Bergman: "The Seventh Seal" (1957) Trailer (SPOILERS)

Uma memória dos homens ao fim-de-semana

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2009-11-13

Zekez Carvalho recebe uma lição do primeiro-ministro

Foi hoje. Constou por aí, a partir de notícias do Jornal Sol que nas escutas feitas às conversas entre o Eng. Sócrates e o seu amigo Armando Vara, já em Março passado se terá falado da compra da TVI pela PT.
Ora, em Maio, portanto dois meses depois, o Eng. Sócrates desmentiu peremptoriamente no Parlamento ter algum conhecimento desse projecto de compra.
Hoje, interpelado pelos repórteres sobre tal contradição, pelos vistos aparente, o nosso primeiro-ministro deu-me a "tal" lição (a mim e a todos os portugueses): distingiu subtilmente três tipos de conhecimento - o "conhecimento particular", que pode ter sido objecto de conversas com um amigo (em Março), o "conhecimento oficial" (que pelos vistos ele ainda não tinha em Maio, quando falou sobre o assunto no Parlamento) e o "conhecimento prévio" (este ele não especificou em que se distinguia dos outros dois e eu, como sou um pouco estúpido, não percebi onde ele queria chegar com o conceito).

Música à sexta-feira

Classe

Eliminado!
O post não traduzia com rigor o meu pensamento.

2009-11-12

Ora aqui está uma bela polémica

Comentando o meu post PÚBLICA DENÚNCIA, Single Mind atira-se a mim com alma e violência, como é próprio das mentes abertas e generosas. Depois, transcreve para o seu blogue o comentário e, com execesso, honra-me com o primeiro post em mais de um ano, interrompendo desse modo uma espécie de licença de maternidade blogueira que o "seu pequeno tesouro de oito meses" lhe impôs. Desde logo por isso, Single Mind merece uma resposta. Mas por muito mais do que isso a merece: porque, discordando de mim, não se encolheu, não silenciou a sua indignição, não hesitou em me "escaqueirar" a presunção. Gosto de gente assim, saudavelmente indignada. Por isso, mais do que um direito de resposta, sinto que tenho um dever de resposta. Fazê-lo com um mínimo de honestidade intelectual, obriga-me a transcrever aqui o comentário de Single Mind:

Ora aqui vai um julgamento à Fafe (ou à fafense), já que falaram nele. Já a minha avó dizia "limpa à tua porta antes de criticares os outros." E ora cá vou eu limpar a m**** da frente da sua porta, sr. Funes (SENHOR ANTÓNIO CARDOSO da CONCEIÇÃO, se é que este é o seu nome verdadeiro).
1º Deveria saber transcrever o que leu. Entre um número e a unidade de medida digita-se sempre um espaço. A unidade de medida (neste caso o quilograma) é SEMPRE em letras minúsculas. Pode sempre consultar um livro sobre as normas internacionais de escrita, que o que lhe estou aqui a ensinar hoje não é nenhuma novidade para alguém que tenha no mínimo a quarta classe.
2º Caso também não saiba, escreve-se Ministério da Educação com letras maiúsculas e... Ministério leva 3 iis.
Pelo seu palavreado, que muitos comentadores ficaram hilariados com o seu discurso, o uso de palavras como tripas revoltas, rebentar os miolos e estrumeira, leva-me a crer que habita no Porto (mas isso não é novidade nenhuma), que deve pertencer ao FCP e que também deve ser um agricultor. Ora como não tenho conhecimento de nenhum latifúndio na cidade do porto, creio que deve cultivar uma pequena horta.
Caro senhor Funes, está na hora de ter mais sorte na vida, porque não se junta ao Grupo da Porto Editora para trabalhar em equipa com eles, e mostrar que sabe fazer melhor do que os matemáticos.
Subscrevo-me como matemática e revisora da revista Polymer Engineering and Science, e mais não lhe digo. Faça o juízo que quiser sobre este comentário, mas lembre-se "temos de varrer a frente da nossa porta, antes de falar dos outros".
Para terminar, como digo sempre, o Português só sabe criticar pela negativa, NUNCA tenta construir nada.
Os meus parabéns, conseguiu que eu, depois de mais de um ano, escrevesse um post e... imagine-se, dedicado a si.
RESPOSTA:
Cara Single Mind,
Antes de mais, deixe-me agradecer-lhe o seu comentário e deixe-me apresentar-lhe (com oito meses de atraso) os meus sinceros parabéns pelo "seu pequeno tesouro".
Dou-lhe a minha palavra de honra que o meu nome verdadeiro, embora incompleto, é António Cardoso da Conceição. O meu nome completo é António José Cardoso da Conceição e tudo quanto sobre mim pode ler no meu perfil é rigorosamente verdadeiro, com excepção dos dois últimos filmes citados como favoritos que - como julgo ser óbvio - não existem. A informação sobre o meu ano do Zodíaco é da responsabilidade do "Blogger" e não tenho conhecimentos que me permitam confirmar ou infirmar a sua veracidade. Funes ou Funes, el memorioso, é o pseudónimo que uso na blogosfera. É também a minha homenagem a Jorge Luis Borges.
Habito efectivamente no Porto, mas, ao contrário do que presumiu, não sou adepto do Futebol Clube do Porto. O futebol (e o desporto, em geral) não me diz grande coisa, mas assumo-me incondicionalmente como adepto do Sporting Clube de Portugal, como poderia constatar se se desse ao despropósito de ler alguns post que ficaram por aí abaixo.
Também presumiu mal, quando - por causa de uma certa linguagem escatológica que usei no meu post - me atribuiu a profissão de agricultor. Não o sou. E, tenho que confessá-lo, não percebi a relação entre a linguagem usada e a agricultura. Fiquei com a sensação que não tem em grande conta a profissão de agricultor. E aí começam as nossas divergências mais profundas. Eu tendo a considerar que todas as profissões do mundo são desprezíveis, com excepção de quatro: agricultor, músico, filósofo e matemático. Entendamo-nos: o matemático que eu admiro é o matemático puro que olha com desdém para as eventuais aplicações práticas da sua ciência, que se limita extaticamente a sonhar mundos possíveis, não a tentar intervir no mundo que nos calhou viver. Ora, pela revista de que se refere revisora, eu deduzo - quiçá indevidamente - que a sua ligação profissional é, preferencialmente, às matemáticas aplicadas. Não posso, portanto, incluir a sua no leque das profissões estimáveis.
Passemos à substância do seu comentário:
Não tenho, nunca tive, a pretensão de ser mais do que um ignorante. O que não tenho também, nem nunca tive, é orgulho na minha ignorância. Quando me deparo com ela, procuro imeditamente supri-la e corrigi-la. Nunca, justificá-la. Assim, tenho que confessar desde já que eu tinha obrigação de saber que a unidade de medida se escreve com letra minúscula e que entre esta e o número se digita um espaço. Como bem refere, isto não pode ser novidade para quem tenha a 4.ª classe e não é novidade para mim. Mas, não sendo novidade, persisti na asneira e estúpido me confesso. Estou convencido que o contexto marcante do seu comentário me permitirá, doravante, emendar-me e não voltar a cometer este dislate. Até por isso, tenho obrigação de lhe agradecer.
Já não considero pertinentes os seus comentários sobre o uso de minúsculas em "Ministério da Educação" e sobre o número de iis da palavra ministério.
Como compreenderá, se reler o texto que escrevi, o uso de minúsculas foi propositado. É que a entidade que pretendi referir, pela incompetência dominante que nela grassa, não pode ser considerada um Ministério da Educação com a dignidade institucional de um Ministério. É apenas um ministério.
Por outro lado, concede-me, por certo, o favor de admitir que eu sei escrever "ministério" e que, se escrevi tal palavra com menos (ou mais, não o verifiquei) de três iis, isso se deveu a um simples lapsus teclandi. É um pormenor.
E o ser um pormenor permite-me explicitar um pouco o que quis dizer com um comentário que deixei no meu post, a propósito de um reparo sobre substantivos feito pela Nefertiti.
Há erros que são pormenores. Há outros que o não são.
Como toda a gente percebe, escrever "minstério" por "ministério" é um pormenor, é um simples lapso. Ao contrário, quando se escreve "fala-se" por "falasse", "poder" por "puder"; ou quando se diz "póssamos" por "possamos", ou "há-des" por "hás-de", ou "dissestes" por "disseste" não se está perante pormenores. Está-se perante proclamações estrondosas de ignorância. É o que se passa também quando se escreve "quantas gramas" por "quantos gramas".
Estas proclamações não têm importância nenhuma, quando vêm do cidadão comum. São absolutamente intoleráveis, quando vêm de quem se arroga a capacidade de educar e formar a juventude e, em nome dessa capacidade, publica manuais. Por isso, como expressamente declarei no final do meu post, fiquei indignado. O erro denunciado não era um pormenor. Era "revelador".
Por isso, também, eu deixei dito, no meu comentário de resposta à Nefertiti que eu podia, sem escândalo, dizer no meu blogue "quantas gramas". E admito sem qualquer reserva que quem se puser a ler os meus posts passados (quem sabe, até, se no actual) neles descortinará erros reveladores de uma ignorância tão ou mais grave do que a ignorância do género da palavra "grama". Tais erros não serão, seguramente, desculpáveis. Mas eu, ao contrário dos visados no meu post, não me proponho no blogue educar a juventude, nem faço do blogue a minha profissão. É apenas um passatempo que não me impõe especiais e qualificadas responsabilidades. Este facto não me iliba, evidentemente, mas atenua a minha culpa.
E pode estar certa, minha cara Single Mind, quando se trata de coisas sérias e profissionais, não as trato com a ligeireza dos autores do manual que critiquei e denunciei.
Finalmente: o trabalho em equipa não é o meu forte. Sou um velho rezingão individualista. De qualquer modo, não excluo liminarmente a possibilidade de vir a integrar o "Grupo de Revisores da Porto Editora". O trabalho de revisão não é inédito na minha vida e julgo que quando o fiz, o fiz com um mínimo de seriedade e competência. Tudo passará, obviamente, por uma proposta tentadora da empresa em causa.
Não posso terminar sem uma alusão à parte do seu texto - à única parte do seu texto - que me desgostou. Foi aquela em que escreveu: «porque não se junta ao Grupo da Porto Editora para trabalhar em equipa com eles, e mostrar que sabe fazer melhor do que os matemáticos.» (a propósito, deveria ter terminado esta frase com um ponto de interrogação e não com um ponto final, não lhe parece? Pretendeu escrever uma oração interrogativa e não causal, não foi? Não me leve a mal, mas não resisti a esta vingança infantil. Evidentemente, a falta do ponto de interrogação é, neste caso sim, um pormenor, um simples lapso irrelevante). É injusta. Em momento algum da minha diatribe eu pus em causa a competência dos matemáticos. O que eu denunciei, tudo o que eu denunciei, foi a ignorância dos ignorantes, num contexto em que a ignorância é intolerável. E com isto termino. Pela segunda vez neste dia, com o post da Single Mind, fui acusado de só saber dizer mal, de tudo destruir e de nada construir (a primeira foi no Marta onde há vida). Sou forçado a reconhecer a pertinência parcial desta crítica. Mas questiono-me e questiono-a, cara Single Mind: não será construir denunciar o erro grosseiro e chocante? E, mais importante, não será destruir (em especial, o futuro), cair no facilitismo de tolerar e deixar passar em claro o erro grosseiro que deforma e vicia a juventude? Não padecerá desse vício a sua crítica? Ou será que, na essência, está de acordo comigo e só não apreciou o meu modo grosseiro, agrário e atrabiliário?
Do meu lado, sinta-se à vontade, para recorrer a qualquer estilo de linguagem contundente. Pela amostra de hoje, será sempre um prazer confrontar-me consigo.

Escrita quase automática

Era uma vez um pai que tinha três filhas. Uma era loira e a outra, morena.
Um dia, a morena começou a espingardar com o pai e este não esteve com meias medidas. Pô-la fora de casa.
A loira – que gostava muito da irmã mais velha – jurou vingança.
E se mal o pensou, pior o fez.
O namorado tinha um amigo que trabalhava numa oficina que ajeitava bicicletas e carros esbarrados. Falou com ele e ele orientou-lhe um esquema. Ligou o bendix do Fiat Ritmo do pai da loira a uma carga de gelamonite que o Ilídio trolha sacara da pedreira do senhor Vital, de onde fora despedido.
Ao outro dia, quando o pai da loira deu à chave da viatura e accionou a ignição, ouviu-se um estouro tão grande e ele subiu tão alto, que ficou conhecido no bairro inteiro como o Carrero Blanco da Travessa da Lurdinhas.
Quem ficou fodida foi a Zira do monhé, porque teve que passar a manhã inteira a lavar com lixívia as paredes da casa da patroa, que tinham ficado cheias de sangue e com bocados do senhor Santos (assim se chamava o pai das três filhas, a loira e a morena) agarrados. “A minha sorte” – explicava ela ao monhé nessa noite – “é que os vidros se partiram todos, senão a puta (referia-se à patroa) também me obrigava a limpá-los.”
Mal souberam da explosão, as televisões correram ao local, a perguntar coisas aos vizinhos. Uma velhota falou de terrorismo e os comentadores de serviços, frequentadores dos cursos para auditores do Instituto de defesa Nacional, adiantaram logo a hipótese de haver no caso ligações à
Al Qaeda.
Nessa noite, em conferência de imprensa, o presidente Obama desmentiu publicamente tais ligações. Mas depois discutiu com a mulher. Esta não gostou do desmentido:
– Podias ter aproveitado a oportunidade para arranjar um pretexto para bombardear o Afeganistão – protestava ela.
– Mas não havia ligação nenhuma – justificava-se ele.
– Não havia ligação? – Insistia ela incrédula – Não havia ligação? Não havia ligação, arranjavas uma, ora o caralho. Não és tu que mandas na CIA? Não é para arranjar ligações que esses gajos servem?
– Mas eu não quero bombardear o Afeganistão…
– Pois não! Isso sei-o eu! Queres humilhar-me, isso é que tu queres. Vou para a reunião com as outras primeiras damas e elas fartam-se de se gabar: o meu home assim, o meu home assado, o meu estourou com Hotel Al-Rasheed em Baghdad, o meu mandou para o caralho a estátua do Saddam … e eu ali calada e envergonhada, porque tu és um banana, o Bananobama, como eu sei que elas te chamam nas minhas costas.
– Mas, querida, eu sou democrata e eles eram republicanos.
– Tá calado, não me fodas, caralho. Ainda ontem estava o coirão velho da Bárbara a armar-se e a Hilária atirou-lhe logo: o meu home também fodeu a embaixada da China em Belgrado. E o Bill também era democrata. Não é por seres democrata que não bombardeias o Afeganistão. É por seres um merdas.
– Mas eu não posso. Eu sou prémio Nobel da paz.
– Ah, ah, ah, ah, deixa-me rir, prémio Nobel da paz, diz ele. Isso é alguma coisa, caralho? Até o preto do Mandela foi prémio Nobel da paz.
Se há coisa que Obama não tolera é que o comparem aos pretos. Perdeu as estribeiras e aplicou uma estrondosa bofetada na mulher.
Arrependeu-se logo. Correu atrás dela, enquanto esta fugia da cozinha humilhada e ferida no orgulho
- Miguela, Miguela, Gelinha (é assim que ele lhe chama, quando fala com ela em português, embora nunca fale com ela em português)… perdoa-me, amor…
Azar dos azares, a cena foi captada por um paparratos que se encontrava na Casa Branca e que naquele preciso momento passava na cozinha, onde fora em busca de umas sandes, porque estava cheio de fome.
No dia seguinte, a coisa estava em todos os jornais. “Presidente dos Estados Unidos da América dá porrada na mulher” – titulava o Washington Post. “Violência doméstica na sala oval” – adiantava, com menos rigor, o New York Times.
Foi um escândalo mundial.
Em Um blogue que seja seu, Woman Once a Bird fez um post escandalizado, exigindo a demissão imediata do Presidente agressor, em nome da dignidade de todas as mulheres. Funes foi lá e comentou, esclarecendo que a Casa Branca não era propriamente o T1 da Dona Ernestina e do marido. As cenas de violência que lá se passavam constituíam assuntos de Estado que não podiam ser reduzidos a meros pretextos para arroubos feministas.
“Sr, Funes” – respondeu WOaB – “se a agressão da cidadã Michelle Robinson é para si um questiúncula sem importância, um mero pretexto para arroubos feministas, então estamos conversados sobre o grau de degeneração em que o deixou a educação machista que recebeu da sociedade patriarcal em que se formou. Não vale a pena continuar esta conversa”.
Funes - que achava o seu comentário muito inteligente – ficou muito ofendido. Foi ao blogue da WAaB e rasgou-o todo em mil pedaços.
Inconformada, WOaB foi fazer queixinhas à administração da Google. Mas Funes contra-argumentou: que em primeiros, se o blogue era para ser seu, rasgá-lo era um poder que lhe assistia e não era susceptível de ofender o direito de quem quer que fosse; em segundos, que não o tinha rasgado, porque um blogue não é uma coisa que se rasgue. Tinha-se limitado a desconstruí-lo. Serviço que nem sequer lhe tinha sido pago e cuja conta aproveitava para apresentar.
A WOaB ficou destroçada e rendeu-se a estes irrefutáveis argumentos. Fechou-se em casa a reler Derrida e Michel Foucault.
– Bendix para si também – ripostou a Saphou, quando, umas semanas depois, a Maria da Conceição a saudou na rua.
A Maria da Conceição era a filha ruiva do senhor Santos.

2009-11-11

PÚBLICA DENÚNCIA!

- Papá, ajudas-me nos trabalhos de casa?
Adivinho logo que vou ficar mal disposto. O pedido de ajuda da minha filha significa que vou ter que me confrontar com os seus manuais escolares e constatar pela milionésima vez a ignorância chocante e a indiferença atroz que campeia no actual sistema de ensino português.
Hoje, levo cerca de trinta segundos a ficar com as tripas revoltas e a sentir uma vontade quase incontrolável de arrancar em direcção a Lisboa, entrar no ministério da educação (eufemismo usado entre nós para designar a entidade responsável pela propagação da estupidez entre a juventude) e rebentar os miolos ao primeiro tipo com ar de pedagogo que me apareça.
A causa da minha fúria é a estrumeira disfarçada de livro cuja capa reproduzo ao lado: Matemática: 1.ª parte - 6.º ano. Os autores são (escrevo em maiúsculas para seu enxovalho público) MARIA AUGUSTA NEVES, LUÍSA FARIA e ALEXANDRE AZEVEDO. A desonrosa edição é da Porto Editora. O excremento teve revisão científica pelo Centro de Matemática da Universidade do Porto.
Na página 35, está a causa da minha explosão (nem quis ler o resto, para não ter uma apoplexia). O exercíco é o número oito. Transcrevo: "A Ana, o Pedro e o Alexandre andaram na colheita de cerejas. A Ana colheu 3/4kg, o Pedro 2,2Kg e o Alexandre 2Kg... Para encher um cesto que leva 5Kg, quantas gramas de cerejas ainda precisam de colher?"
"Quantas gramas", perguntam os ignorantes!
Senhora Dona Maria Augusta Neves, Senhora Dona Luísa Faria, Senhor Alexandre Azevedo, Senhores responsáveis pelo Centro de Matemática da Universidade do Porto, Senhores revisores da Porto Editora, Senhora Maria de Lurdes Rodrigues, Senhores ignorantes todos do minstério da educação inteiro, vocês não são uns bacocos quaisquer [sim, meus senhores, presumo que vos surpreenda, mas é mesmo assim, o plural de "qualquer" é "quaisquer", não é "quaisqueres"]. Vocês escrevem livros. Vocês são os responsáveis pela formação da juventude a quem o destino da pátria será entregue amanhã. Vocês não podem andar por aí a exibir patetas o vosso incomensurável analfabetismo. Se vocês não sabem que "grama" é um substantivo masculino, não podem publicar manuais destinados à juventude. E, se os publicam, têm que ser denunciados até sentirem vergonha e voltarem de novo para os bancos da escola primária, para aprenderem alguma coisa com professores a sério.
O que mais me choca é que isto já chegou a um estado de degradação tal, que a maioria acha excessiva a minha fúria e indignação. "Tanto escabeche, por causa de um pormenor irrelevante" - dirão.
O problema é que é um pormenor revelador.

Justiça renovada

Julgamento em Vila Nova de Famalicão. A cidade tem um novo Domvs Ivstitiae. Não sabia.
À entrada, descubro a Justiça renovada. Não é cega, não usa sapatos, tem ancas largas e mamas grandes. Uma verdadeira MILF. Não parece em crise.

Roubei a foto ao blogue Espiga Pinto.

2009-11-10

Futura liderança do PSD- Os putativos candidatos (II) - Pedro Passos Coelho

Foi o presidente emblemático da JSD durante uma série de anos, cargo que terá desempenhado com acerto.
Chegado à vida adulta, parece que foi deputado, nacional e não sei se também europeu.
Não sei nem (me) interessa, porque num cargo ou noutro a sua actuação foi completamente anódina.
Entretanto casou com uma das capitosas jovens que em tempos haviam constituído o cacofónico, mas ousado (para a época), agrupamento musical "As Doce".
O nosso homem foi também breve notícia porque, a dado passo e presumivelmente farto de não fazer nenhum nas sinecuras acima aludidas, conseguiu ser contratado para ir trabalhar para uma empresa do Eng. Ângelo Correia, quadro histórico do PSD, Ministro da Administração Interna no governo presidido por Sá Carneiro, frequente comentador televisivo sobre questões militares e de defesa nacional e reputado Maquiavel de trazer por casa.
De repente, nos tempos conturbados que se seguiram à éfemera passagem de Santana Lopes pela chefia do partido e do governo e à pouco duradoura liderança de Marques Mendes, eis que Passos Coelho aparece em cena com os ambiciosos desígnios de conquistar a presidência do PSD e, depois, ser primeiro-ministro de Portugal.
Encostou-se à facção dita "do aparelho", em que Luís Filipe Meneses, despeitado e vingativo mas sem ousar candidatar-se outra vez à liderança do partido, procurava um delfim com que pudesse combater as facções que no seu delírio paranóico julga que lhe sabotaram o consulado.
Depois, Passos Coelho arranjou uma doutrina para servir: o liberalismo. E um slogan: a renovação. E fez até uma proposta para ilustrar ambos: que se privatizasse a Caixa Geral de Depósitos. Mas, com a emergência da crise financeira mundial, logo Passos Coelho abandonou essa peregrina proposta e passou a dedicar-se apenas à pequena intriga, no interior do aparelho do partido e na comunicação social, tentando desgastar Manuela Ferreira Leite que o derrotara em eleições internas, naquela que foi a sua primeira tentativa de conquistar o partido.
Passos Coelho tem uma bela voz de barítono e uma elegante figura física.
Uma e outra aconselhavam a que o convidassem para apresentar programas televisivos, daqueles que enchem as manhãs da TV, contracenando com Serenella Andrade ou Fátima Lopes.
Não é uma maldosa tentativa de fazer humor: acredito mesmo que o seu talento nessa função excederia até aquilo que foi como eterno chefe dos jotinhas e que seria tão bom a dialogar com reformados ou a apresentar cantores "pimba" como foi a colar cartazes ou a ganhar eleições liceais.
Mas não. Passos Coelho acha-se fadado para altos cargos e nem consegue disfarçar uma impaciência patética em forçar rapidamente a realização de novas eleições internas, tentando capitalizar descontentamentos com a derrota nas eleições nacionais de Setembro último.
E, por incrível que seja até pode ser que ganhe essas eleições internas, lá para a próxima Primavera.
Ávida de "novidade" e de "juventude", a comunicação social eufeudada ao Sistema (ou seja, quase toda) embandeiraria em arco com este presente que substituiria a "velha", a "senhora", a odiada Manuela Ferreira Leite.
Depois, passadas que fossem aí umas duas semanas, pelo país começariam a correr anedotas sobre Passos Coelho como em tempos já distantes correram sobre Samora Machel. Alguém descobriria que o arejado e jovem Passos Coelho era uma versão nacional de Dan Quayle (vice-presidente dos EUA durante quatro anos, já não recordo se com Reagan ou com Bush pai, cujas principais características eram ser bonitinho e burrinho).
Sócrates respiraria fundo e o PSD enterrar-se-ia mais um pouco no pantâno onde está atascado.

Por certo, saiu de Alcochete

Em viagem de Viana para o Porto, ouço as tradicionais banalidades que antecedem sempre os jogos de futebol. Desta vez, é a transcendente questão ibérica da presença de Cristiano Ronaldo manco na convocatória da selecção. O entrevistado é um tal Pereirinha que, a certa altura, diz qualquer coisa como isto: "o importante é que, com Ronaldo ou sem Ronaldo, estejamos preparados para ganhar à Bósnia". Sim, disse "estejamos" e não "estêjamos". Foi a segunda vez na vida que ouvi um jogador de futebol a usar correctamente o conjuntivo. A primeira foi Simão Sabrosa, há muito tempo.
Não faço ideia quem seja esse Pereirinha, mas deduzo que seja do Sporting e que o uso correcto do conjuntivo seja um dos méritos suplementares do ensino promovido na Academia de Alcochete.

2009-11-09

La Chute

Na hierarquia dos meus fascínios, na escala da omnisciência, George Henrik von Wright estava, em 9 de Novembro de 1989, imediatamente abaixo do professor Baptista Machado e cerca de seis ou sete pontos acima de Deus. Em Novembro de 1989, isso queria dizer que era o primeiro. Uma semana antes, o professor Baptista Machado cortara a meta e o fulgor da sua inteligência partira, eterno, a iluminar outras dimensões.
Von Wright não se limitava a ter tocado Ludwig Wittgenstein. Fora seu sucessor na cátedra de Cambridge. A sua comunicação era às nove e meia, no Palácio de Congressos, do outro lado da cidade. O conhecimento recente das tabelas da conjunção e da disjunção, das leis de Morgan e das estranhas verdades da implicação material (que nos fazem concluir com certeza inabalável que se Platão foi pai de Sócrates, então a Lua é feita de queijo) levavam-me a acreditar que o compreenderia.
Acordei tarde. Na véspera, António Martino – argentino, jurista, lógico, comunista, exilado político, amante de bom vinho e de belas mulheres, génio, maluco e generoso a tempo inteiro – levara-nos pela noite de Florença até à tasca de um brutamontes seu amigo, também comunista, cozinheiro de raça, praticante de Calcio Fiorentino e amigo de Fidel Castro que, às duas da manhã, completamente bêbado, com uma moca ameaçadora erguida na mão direita, nos forçara a sair para a rua cantando: “Aquí se queda la clara,/ la entrañable transparencia,/ de tu querida presencia/ Comandante Che Guevara.
Acordei tarde. A comunicação de Von Wright era às nove e meia. Receando a massa e o queijo que haviam de me esperar o dia todo, empanturrei-me ao pequeno almoço. Atrasei-me ainda mais. À saída do hotel, apercebi-me que, se não apanhasse um táxi, nunca mais chegaria a tempo. Apanhei-o. Foi a única extravagância não subsidiada pela CEE que fiz em quase um mês de Itália.
– Para o Palácio de Congressos – pedi, no meu italiano de Santa Marinha, Vila Nova de Gaia.
Ah, portoghese! – Exclamou o taxista, sem grande entusiasmo.
O rádio do carro ia ligado. Da algaraviada entusiástica e florentinamente gritante que saía dos altifalantes, percebi que se passava alguma coisa de extraordinário em Berlim. Concentrei-me, tentando captar melhor o idioma estrangeiro. Lendo o meu esforço e a minha atenção, ele tirou momentaneamente a mão do volante e enfiou abrupto a cassete no leitor. Um segundo depois, as vozes do noticiário foram substituídas pela alegre e familiar melodia da lambada: “a recordação vai estar com ele aonde for…Chorando estará, ao lembrar de um amor que um dia não soube cuidar...
Che bella questa canzone! – gritou o taxista em êxtase. E não mais parou de a trautear até ao Palácio.
Não recordo se foi ao almoço ou só à noite que tive conhecimento oficial da queda do muro.
Ainda hoje sinto remorsos por me encontrar em Itália e não ter assistido ao funeral do Professor Baptista Machado.

In memoriam

Nasceu em Pardelhas, no concelho da Murtosa, em 9 de Novembro de 1909. Se fosse vivo, faria hoje 100 anos. Aos 17, desembarcou em Ellis Island com sete dólares no bolso e a alma cheia de esperança. Reza a lenda que trabalhou como preparador na construção do Empire State Building, mas ninguém o pode comprovar. Certo é que em 1932, poucos dias antes do vigésimo terceiro aniversário, casou com Gloria Morales, hispânica de nacionalidade desconhecida. Em 1952, passou o mês de Agosto na Murtosa com a mulata. Saiu pouco e visitou raros amigos e parentes. Já quase ninguém se lembrava dele. O pai tinha morrido em 1938 e a mãe em 42. Não tinha irmãos. Regressou à América em Setembro, para não mais voltar. Morreu em 13 de Março de 1976. Não se sabe ao certo onde está enterrado. Em rigor, nem sequer se sabe se existiu. Eu é que precisava de um tipo que comemorasse hoje 100 anos, para fazer este post.
Se tivesse lido antes o "Público", tê-lo-ia feito sobre a morte de De Gaulle.

2009-11-08

Uma memória dos homens ao fim-de-semana

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2009-11-07

Contra-natura

Há, porventura, milhões de argumentos contra a homossexualidade e contra a união homossexual. Um deles não é, com certeza, o aqui esgrimido por Zekez Carvalho (aliás, muito comum), de que tal união é contra-natura. É que ser contra-natura faz parte da essência do ser humano.
Ou não será contra-natura cozinhar os alimentos, comer com talheres ou limpar o rabo depois de defecar?
Não será, antes, contra natura querer forçar a atracção por indivíduos do sexo oposto a pessoas cuja natureza as leva a sentirem-se atraídas apenas por indivíduos do mesmo sexo?

2009-11-06

Música à sexta-feira